11 de janeiro de 2008

Para quem é Pai / Mãe, Avô / Avó… e para aqueles que mais cedo ou mais tarde o serão

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos seus próprios filhos.
É que as crianças crescem independentes, como árvores tagarelas e pássaros estabanados. Crescem sem pedir licença à vida. Crescem com uma estridência alegre, e, às vezes, com alardeada arrogância.
Mas não crescem todos os dias de igual maneira.
Crescem de repente.

Um dia sentam-se ao teu lado e dizem uma frase com tal maturidade que sentes que não podes voltar a mudar as fraldas daquela criatura. E perguntas-te: “Onde é que andou a crescer esta “danadinha” e eu não percebi?”
“Onde está a pazinha de brincar na areia, as festas de aniversário, os palhaços, a roupinha do colégio?”
A criança cresce num ritual de obediência orgânica e desobediência civil...
E dás por ti ali(…) esperando que ela não apenas cresça… mas apareça!
E como tu, ali estão muitos pais ao volante, esperando que eles saiam esfuziantes correndo, cabelos soltos despenteados como eles gostam.
(…) Estes são os filhos que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias e da ditadura das horas.
Eles crescem meio amestrados, observando e aprendendo com nossos erros e virtudes. (…)

Há um período em que os pais vão ficando um pouco órfãos dos próprios filhos!
Não os voltamos a ir buscar a porta da escola ou das matinées. Acabou-se o tempo dos treinos de futebol, do ballet e da natação.
Saíram do banco de trás e passaram para a frente. Para o volante de suas próprias vidas.
Então, é inevitável pensar que deveríamos ter ido mais vezes à cama deles, ao anoitecer, para ouvir sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância.
Devíamos ter prestado mais atenção aos adolescentes cobertores daquele quarto cheio de adesivos, pósteres, agendas coloridas e discos ensurdecedores.
Não brincamos com eles o suficiente, não os levamos ao Shopping tantas vezes assim, não lhes demos suficientes Hambúrgueres e Colas, não lhes compramos todos os gelados e roupas que gostaríamos de ter comprado.

E Eles? Eles cresceram sem que esgotássemos neles todo o nosso amor, todo o nosso afecto.

Inicialmente subiam a serra ou iam à casa de praia entre sustos e aventuras, Engarrafamentos, Natais e Páscoas…
Sim, haviam lutas pelo lugar à janela, os pedidos de chicletes, as cantorias sem fim.
Depois chega o tempo em que viajar com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar o grupo de amigos e os primeiros namoros.

Os pais ficaram exilados dos filhos.
Tinham a solidão que sempre tanto desejaram, mas, de repente, morrem de saudades daqueles momentos infernais, daquelas "pestes"…
Chega o momento em que só nos resta ficar de longe a “rezar” para que eles acertem nas escolhas em busca da sua felicidade. E que a conquistem do modo mais completo possível.

A única solução… esperar!!!
Esperar que sejam Eles mesmos Pais. Que apreciem e sofram por amor, tanto como eu.

Um neto é a hora do carinho ocioso e desmedido, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco.
Por isso os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável carinho.
Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afecto.
Por isso é necessário fazer algo mais, antes que eles cresçam…

Aprendemos a ser Filhos
depois de sermos Pais...

Aprendemos a ser Pais
depois de sermos Avós...

(Texto de Affonso Romano de Sant'Anna, adaptado por Miguel Ferreira)

3 comentários:

Pratas disse...

Muito bom este texto.

Abraço!

Edite disse...

É assim a vida! E feliz daquele que passa por todos esses processos! É sinal que teve uma vida plena de alegria e felicidade!
Beijo

Miguel Ferreira disse...

Pratas: Obrigado meu amigo! Abraço

Edite: Espero viver tudo isto e muito mais. Espero desiludir-me e espero não desiludir... Beijo